domingo, 5 de agosto de 2007

Mel e outras poesias

MEL

Quando a encontrei era só açúcar,
prazer, dança, doce de goiaba e mel.
Um mar de sal e sol para temperar,
vinho branco e, ou, cerveja gelada.

Criação boa à receita de felicidade:
e assim foi o tempo das maresias,
ondas rasteiras, espaços espectrais,
pôres de sol. É verdade: o sol se põe?

Sei que estão pensando que vou falar:
Agora tudo é fel (para rimar com mel),
mas que nada, só a distância atrapalha
a convulsão mansa de nossa pele úmida.

Se for possível, continua doce, mel e mel,
bacuri em calda, condimentos picantes,
sorvete de juçara... Já falei dos lábios?
Ara que boca! Ânsia devoradora, ora...

LAMENTAÇÃO EM DÓ

Pálpebras cobrem os olhos da alvorada
febris ainda não se levantaram: é noite.
Sinto-me como que nascendo – nada –,
surgindo à porta do ventre de uma mãe.
Haverá um regaço para me acolher,
seios para me alimentar, balangandãs,
um colo para o repouso tranqüilo.

Mas quem esconderá do meu olhar
esta visão de todos os sofrimentos?
Até que o corpo pouse pacificamente?
Até que chegue o descanso? Ventres...
A vida é sopro. Males – jamais deixas
de perturbar o repouso dos cansados?

Ó Espreitador dos Homens (queixas),
por que concedes luz ao miserável?
Por que dás vida aos amargurados,
eis que esperam a morte e ela não vem?
Por que iluminas o homem, ó Adorável,
cujo futuro é oculto pela mãe natureza?

Nós somos de ontem e nada sabemos,
nada, sobre nossos dias sobre a terra.
Não, nada sabemos sobre as sombras,
as que acompanham os nossos passos.
Em tais pensamentos e visões noturnas
sobrevive o espanto. Tremo, trememos.

Os ossos se estraçalham silenciosamente,
se espíritos passam ante mim, agourentos.
Os pêlos do corpo se arrepiam, espinhos,
fantasia, alma, distingue bem a aparência.
Vultos que se postam diante dos olhos nus
como uma tremenda interrogação. Cruzes.

Depois vem o silêncio de calmaria vasta
e desperto pensando se foi desta vez,
se nesse instante deceparam o fio de vida.
Imagino se afinal se derreteu estes meses –
em mim a dureza da pedra, do mármore.
Será afinal os olhos de granito que agora
me vêm já não me verão mais? Será?

Cada vez demais comprida é a noite
e a madrugada demora ainda mais.
Tenho de lembrar sempre: embora
a nuvem se desmanche rapidamente,
o vento amarfanha as folhas, árvores,
até curvar-se na estrutura da terra...

Verdade – quem desce jamais retorna.

NOVO

Já escrevi uns poemas desesperados
e tomei várias tantas cachacinhas,
me despedi da mulher que era minha,
agora escuto um forró bem rasgado.

Beijo os farelos e as sobras de pão
antes de atirar os flocos pela janela
aos pombos. Corpo de Cristo, vela,
aprendizado de catecismo, oração.

Quando quero ser mau e demoníaco,
na calada da noite e só (assim suponho),
com os pensamentos mais malditos,

emborco chinelos, sapatos, com ódio
mortal – e criminoso, assassino, infenso,
espero que os inimigos acordem mortos.

ANJO

Aqui nada sobreviverá,
o não tocado por Deus.

Os Seus dedos roçarão
esta fronte comovida?

Nada, nada aqui viverá,
sem a bênção de Deus.

Quando Deus me tocará?

SEMENTE

Diga algo que venha do alto
e eu avançarei compungido,
de braços abertos para o alto
com o coração estremecido.

Que seja em música diga algo,
que abale e me deixe afligido,
a comoção que ofenda, algo
que ainda nunca foi atingido.

Agrida-me forte com poesia,
a palavra que detona o ser,
fira a alma – bala da poesia,

Diga-me algo que possa ser
a lavra na terra da poesia,
fira a alma que ofenda o ser.

E O NÃO SER

O que mais posso fazer se o sol forte late na fronte?
Se lá longe naqueles montes casas dependuradas voam?
Se essa luz, que fulgura de distante, não é minha?
O que aqui posso dizer se algo iluminado não me diz?

O que posso dizer se o sol brilha em quilates lá fora?
Ouvir rumor de água no rio, fontes, ondas na praia à toa?
Se a claridade áurea reluz sobre mim e algumas nuvens?
Que posso fazer a algo que me ilumina em cor e giz?

São seres, retratos, que têm nossos olhos e nossas bocas.
Almas que eram irmãs, pensaram iguais, almas vivas e nós.
Casais que se amaram nas esquinas e nos fizeram viventes.

A repetição eterna que se apregoa nas palavras perdidas.
A fotografia de seres que se foram, filmes que movem almas.
Todos, alguém que pisou a terra e, antes de nós, viveu a luz.

TERRA

Não existe sal mais em meu corpo,
não existe porto em minha vida.
Os músculos se agitam e tremem,
e o coração – quem diria – dói.

É a terra líquida que se aproxima,
a fibra que pende descontrolada,
a falta do ar que ao pulmão anima,
a cabeça: uma massa desabitada.

Braços amigos que me dêem guarida,
não existe porto para o meu corpo,
nem mais o fumo, o beijo, a bebida.

Somente a noite, só a noite prometida,
não existe sol, nem mais um porto,
– o corpo amado que me dê guarida.

PESADELO

Não é maromba urdida
que minha vista abala
nem é verdade boato
ou uma mentira crida,
o que vejo é paisagem,
verdadeiro panorama,
o sol no ocaso vermelho
(ou será seu nascimento,
a Alvorada do Homem?).

Umas colinas campinas,
uma árvore só solitária,
umas ovelhas bastardas,
bodes caprinos caprinas,
cavalos éguas e crinas
vela enfunada ao vento,
eu solvendo tudo na TV...

Fica louco quem me lê?
Assim fora eu santo, eu
penso irmão com o vento,
viajar leve a leve passarola
levar a vida tecida enredo,
estar das melhores a medo.

A fim do homem espanto,
o que se inverte me invento
rede pra pescar outra rede,
paisagem d’outra paisagem.

Assim fosse eu centro santo,
assim fora eu santo credo
sob cercado de paisagem,
sonho ilusório panorama,
sol pôr-se acaso vermelho,
será meu nascimento sim,
outra Alvorada do Homem...

RECADO PRA DAVI

Vê Davi, não saiu nada do que a gente tinha planejado.
Não deu, não é?
Era que a gente fosse mais que amigo,
amigo assim que nem pai e filho. Mas o quê!
Nada não deu certo. Não, não deu certo, nada deu certo.
Sei que não crês. Nem eu.
Um dia você pegou meu nariz,
olhou espantados os meus olhos e sorriu...
Atirou-se sobre mim, arranhou meu rosto,
deixou a marca das unhas finas das crianças.
Eu ri. Eu ria a cada sorriso teu.
Ria a cada promessa que imaginava em tudo isso.
Não penses que foi ali o início. Não foi.
Falei muito antes contigo. Hoje não estás.
Estavas ainda na barriga da tua mãe e eu já tentava o bate-papo,
dar-te mais vida, essas coisas bobas.
Bem que amei teus olhos castanhos,
tua atividade dinâmica, tua força divina.
Eras isso, sim, como sonhei, um dínamo,
um dínamo de saúde querendo viver.
E eu pensei que iria ter-te ao meu lado,
como amigo, companheiro em força:
aquele que me sugerisse anotar alegrias outras,
que me abraçasse, mas não estás.
Aquele que me desse palpite sobre verbos
e amor, sobre pronomes e felicidade.
Tu és meu companheiro adjetivo,
sem fantasma, sem vírgula, sem substantivo.
És Davi e só. Meu anjo e meu amor.
Meu amigo e meu sorriso companheiro.
E se hoje estou aqui embaraçado
entre pautas e letras, entre sons e sonidos,
só, entre imagens somente sonhadas,
amigo e irmão Davi, como fazes falta.
Tu me dizias, ali não, nem ali,
tampouco ali e eu me ria todo, ao teu lado,
sonhando a cor das tuas idéias,
que eram idéias de não hoje – de longe.
Mas não estás. Acredite, tudo isso não foi me tirado não.
Nada me foi roubado. Nada me foi traído.
Tudo acreditou que estaríamos juntos,
tanto criei, sem rezas ou orações. Mas, nada!
Porque éramos espelho e te vi o meu espelho,
na imaginação sonhada da meia noite.
Então a imagem que é teu rosto,
principiante em teu olhar, tudo que nasceu de mim,
essa figura que se me antolha
os olhos e me tira a paisagem do horizonte.
Não está. A música que sonhei, as notas,
as harmonias, as rimas, o ritmo, a ilusão, não está.
Vê Davi? Nada saiu daquilo que a gente tinha
intimamente planejado. Não deu, não é?
Era que a gente fosse que nem pai e filho.
Que a gente fosse mais que amigo. Mais.
Tudo que estava criado em mim como
a fotografia tua, tudo se esvai em fumaça.
É noite – as galáxias passeiam,
aquela estrela não mais existe: – Davi, quem és?

(Rio, 09/02/2001).

AQUI

Senti, sim, mesmo longe, num momento mesmo longe, aqui,
o toque, senti tuas mãos, o calor delas, o poder táctil dos dedos.

Ouvi teu pensamento claro, formulando as receitas naturais,
as meizinhas santas que minha alma precisa para sarar, sarar.

Senti também o olhar pousado sobre mim, sereno e negro,
do alto, bem alto, a luz de teus olhos negra dava proteção.

Ouvi, mesmo na estrada, dirigindo velozmente, ouvi tua voz
murmurando a canção que eu gostava de ouvir, a voz mansa.

Senti que era pra mim aquela reza sem regra e ouvida somente,
senti que era pra mim, sim, a oração nova dita pra mim, diferente.

Ouvi que eram para mim gritos e saltos do menino dela, ao colo,
o riso e a alegria, o abraço e a lágrima, a fome e a sede, pra mim.

Senti grudada a mim a pele, a boca , porta aberta, hálito de fumo,
o suor do pescoço sem perfume, a nuca, minha mão perdida, ilha.

Ouvi hoje a solidão, à noite, a febre que não cura, comprimido, só,
apenas, só, o peso inteiro do planeta Terra pousado em meu peito.

Senti enfim o abandono, na carne, na noite, a febre que não se cura,
bem sobre mim total o peso inteiro da terra enterrando o meu peito.

Ouvi na hora tudo na alma emudecer: o verbo, som, a palavra, toque,
mãos sem calor, olhos inúteis, a voz mansa, beijos, calar a canção...

SALMO DO SABER

Quando nasci me ensinaram que Deus fez o mundo em sete dias,
Que sobre o Universo reinava onipresente em Sua infinita bondade.

Ensinaram-me que era pecado cheirar as partes pudendas das meninas,
E falaram que era pecado se masturbar vendo fotografia de judias mortas.

Contaram-me que o Sol nasce, gira sobre a Terra, se põe no ocaso, nasce,
Disseram que a lua traz presságios bons e maus (aquela dos enamorados).

Sofri a unção do óleo e do sal porque todas as crianças são batizadas sãs
Para livrar do Pecado Original suas alminhas puras, angelicais, anjos.

Aprendi que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, que é uma terra
Abençoada por Deus e bonita por natureza, que beleza, que reza, beleza.

Ensinaram-me que era pecado mortal chupar as partes peludas das mocinhas,
E falaram que era pecado se masturbar vendo fotografias de Luz del Fuego.

Ensinaram-me que existem céu e inferno, maldade e bondade, o amor, o ódio,
Que cometendo os pecados que cometi ao morrer ia para o fogo dos infernos.

Etc.

QUEM

Eu cobiço a mulher de todos.
Eu como, bebo as bebidas e comidas excelentes.
Eu não alcancei a plena liberdade.
Eu não alcancei o corpo de fogo.
Eu não fui aonde não sei.
Eu não sou bom, às vezes molesto.
Eu não sou paciente, muitas vezes agrido.
Eu não sou a consciência pura e infalível.
Eu não sou fundamental em nada.
Eu não sou intangível e inconcebível.
Eu não sou isto nem aquilo.
Tampouco sou a eternidade.

Eu não sou invariável e invisível.
Eu não sou o alvo sublime.
Eu não sou o conhecimento da libertação.
Eu não sou o EU, eu não sou o UNO.
Eu não sou o que ficará ainda.
Eu não sou o que mora em cada ser.
Eu não sou o som, a vibração primordial.
Eu não sou o último fruto.
Eu não sou o dom humano.
Eu não sou toda a sabedoria.
Eu não sou isto nem aquilo.
Tampouco sou a eternidade.

Eu não sou tudo o que se sabia.
Eu ouvi o ruído das carnes cobiçosas.
Eu ouvi o tumulto da inteligência vaidosa.
Eu tenho inveja e peco todos os pecados.
Eu tenho medo.
Eu tenho medo da doença.
Eu tenho medo da doença, da dor.
Eu tenho medo da doença, da dor, da velhice.
Eu tenho medo da doença, da dor, da velhice, da morte.
Eu não sou isto nem aquilo.
Tampouco sou a eternidade.

VENTO

Vento norte que passou
sobre a casa dela
movendo as plantas e os pés.

Enfim estás de volta,
orla do meu nariz ,
como reconhecer o perfume?

Ventos norte, nada dizem,
no entanto sei que ela
tomou ares de ti.

E agora eu que espanto
com perguntas, vento norte,
respostas? Nada, nada...

Podia estar naquele avião
que passou rumo ao Norte.

Mas não hoje, nem amanhã,
nenhum sol para me salvar.

QUAL DOR?

O tempo nos obriga a dissipar a dor que não é dor,
uma certa dor de ausência quando se prevê infeliz,
ou dor – por que não? – que traz algo de felicidade.

De revés assoma o tremor de experimentar outra dor,
psicografada, dor-de-corno, a traição como se repensa,
um desvão do comportamento ou inveja por não ser.

As arritmias que trazem a dor-de-cotovelo, que não é,
não a física dor de cabeça, mas aquela do espírito,
a dor estética depois de anos sem sentir consciência.

Dor da saudade – existe? – outras que levam ausência,
em contrapartida dialética à dor física inimaginável,
essa não tem cura nem com pílulas nem com oração.

Haveremos de clonar cérebros antes de atravessar
a fronteira, cegar o fio da navalha, romper, romper,
parir todas as dores ou somente imaginar-se impune.

ELEGIA

Todo dia tem um som, som que enriquece,
vibra como riquíssimo intimismo passional,
vasta expressividade, intensamente contida.

Palco da vida ensimesmado em lauta agonia,
talvez quase perfeita maestria sinfônica que...
...reflete excepcionalmente a tensão criadora.

Alegoria de ritmo impuro, riso que enlouquece?
Fluxo, pugna contínua, sombra melancólica inicial?
Pôr-do-sol que dói e canta as cores da harmonia?

O veio dissoluto sacralizado, carnaval noite e dia,
o reencontro irretocável em catarse ao final do dia,
a dança iluminada, evocativa, em estilos e defeitos.

Enquanto som – vastidão de luz e tons orfeônicos,
tudo resplandece, a sopesar a claridade, o arranjo
– simplicidade, veio espiritual, torre e céu, fogo e ar.

Porque ela não ouve ninguém ouve. Porque, porque?
Mágico tempo de encantamento espiritual soerguia,
épico, lendário, a semiforma clássica perder, poderia.

ABANDONO
(samba-canção)

Sei que vou te deixar um dia
Mas não levo nenhuma alegria
Porque não semeio os laços de dor.
Quem criou entre nós a distância
Só pensou que a inconstância
Vamos colher em vez do amor.
Quando chego fico muito feliz,
Quando parto é a lágrima que diz
Que é hora de viver de saudade.
Tudo não será ironia do destino,
Ou mesmo hipocrisia, desatino,
Dessa besta chamada felicidade.

ASAS

A borboleta negra chega.
Eis que passou setembro
e vem o mês de outubro!
A borboleta negra passa.
O calendário não tem culpa.
Um novo terror se anuncia,
de novo, tenebroso, o temor.
A borboleta negra já é.
Se verá o novo Messias?
Essas torres que tombam
sem alçar ao céu. Pecado.
A borboleta negra revoa.
Mães postas em oração,
oram uma reza piedosa,
rezam a oração piedosa.
A borboleta negra voa.

SEM DESTINO

Mesmo que se conheça
o dia de amanhã,
mesmo que se saiba
que de manhã estaremos
subindo aos céus,
ainda se tem de tomar
banho, lavar os cabelos
com xampu, fazer a
barba, ouvir Beethoven,
passear à toa por aí...

Mesmo que amanhã,
amanhã de manhã cedo,
seja o dia de estar sentado
ao lado direito do Criador,
ainda assim é pegar o ônibus
e cair na estrada (cabelos
ao vento), com a mulher
amada, passear no mundo,
esse mundo todo errado,
maltratado, que a nós sorri...

CALIMA

Uma vacina contra paixões terminais,
como guardar o coração num púcaro,
roteiro para itinerários sem bússola.

Algo que faça ver a morte sem temer...
Não, como um acontecimento cotidiano:
pode dizer como evitar qualquer amor?

Acima de tudo que nos protege e guarda,
o vento carrega o vírus, silencioso e letal,
chamamento epidérmico, ardor, suor.

Navegar o abismo, voar na cachoeira livre,
ruir de novo sobre lábios, abraços, laços,
desejar-se envenenado e querer mais, mais.

BRISA

A morte não pede discurso,
agora que ganhou o silêncio
só aspira a brancura maior,
a morte quer a luz dos dias,
claridade grande de campo.

– Em tudo o silêncio cala.

A morte não mede oração
ou que sejamos omissos ante
o dever de tê-la à mão, não
hoje, o cromatismo desfeito,
o corpo em si repousado.

– Em tudo o silêncio cala.

A morte não quer o som
das lavras largadas ao léu,
nada quer o derradeiro erro,
sequer o pedreiro, a larva,
missa cantada a três vozes.

– Em tudo o silêncio cala.

Ganhou o espaço incorrupto,
a morte nem mesmo ocupa,
olhos ou estrelas que brilham:
tensa, apenas que amanhã será
sem o elo que o tempo levou.

– Em tudo o silêncio cala.

O dono da noite perdeu medo
do sepulcro adquirido, vácuo,
nem teme o mudo som do pó,
olvido, olvido, olvido, olvido.

– Em tudo o silêncio cala.

Só.

DIA

Hoje quando fazia a barba e me cortei levemente,
o vermelho do sangue que vi refletido no espelho
Fez-me pensar quão perdido está o país do coração...

Alcançar o Z desconhecido, ao primeiro instante,
passar o dia leve, comovido – homem sem emoção,
estimular o tempo, esquecer o que é velhice, voar.

A pele tremeu rubra diante do espelho respingado,
a lâmina de aço cintilou, o raio de sol varou a janela,
ganidos, latidos do cantaor gitano ecoaram guturais.

Fazer o dia, fazer o dia seguinte, depois de amanhã,
desesperadamente, procurar, achar o mundo novo,
sugar o leite materno, a cotidiana essência da vida.

Pouco depois o tempo virou ridículo, dono do azul,
Mahler soou ao ouvido como um frevo de Capiba,
e pude sorrir de tudo isso – e não é para rir mesmo?

DIÁRIO EM BRANCO

Sonhos que continuam sonhos,
a curva do horizonte infinito,
o ocaso do universo redondo,
vindimas de Nicarágua e Fez,
sombra que parece cimentada,
limpo e concreto perfil de você.

Sonhos que continham sonhos,
Astros, Estrelas, Sóis, Adrômedas,
piratas de mares, oceanos, ilhas,
outras galáxias, constelações,
as feições dela, corpo da alma,
fronte debruçada em lágrimas.

Sonhos que renegaram sonhos,
viagens colombinas ao semi-eixo,
ir e não vir sem jamais perceber,
semi-ente, semidor, semitarde,
nossa terra de círculos vários,
que o corpo em carne viva arde.

Sonho, sonho, que é quase sonho,
espasmo do peito tenso de você,
quando o afago é apenas um sinal,
leve vida curta, temporal, breve,
sol dos guarás, restinga de ninhais,
e por que não? Por que não ser?


Sonho, sonho, que sonho não é,
a fé do instante desconhecido
é uma fuga, sim, fuga sem dó,
hálito de um espírito destruído,
entre a boca de você e o desejo
sobrevive o espectro do amor...

ÁLBUM

Um pouco de azul não faz mal a ninguém,
nem o verde que se esgueira entre as casas
ou a mesma estrela multicor que me segue,
cintilando mistérios, emprenhada de segredos.

Faz bem o cristal salinoso que emerge da onda
e penetra entre as frestas das roupas, botões,
a espuma que lambe a epiderme rugosa e sã,
lábios ressecados noutros lábios ressecados.

Não faz mal o cheiro de mar aromatizado,
vasa que entranha e fere as narinas da alma,
nem faz mal a água doce que corre nos dedos
enquanto o rio se mexe direito a outros rios.

Faz muito bem a luz clara, manhã aventurada
que se debruça em cumprimentos e mesuras,
perseguindo o som em partitura emoldurada,
letra de música ministrada às rezas vesperais.

Não é mal despertar sobre o corpo dela em duna,
lençol de areia monazítica, amplo de vivacidade,
salgada sebe, glândulas salivares, cuspe, licor,
pudor rouco, gozo em azul, destilado entre coxas.

MARÉ

Direi: é sábado, 30 de outubro,
a lua imensamente enorme,
muito maior do que o sol,
acachapante, humilhando
o pouco que restou de nós.

Boa noite antiguíssima lua,
pode entrar, o coração é seu,
aplastra as vagas sem dó:
mete de entremeio o amor,
(afinal eleva-se a palavra).

Não há sentimento, nem maré,
nem provocação no céu vasto,
boa noite amiga lua, lua dela,
pode entrar, aplastra as vagas,
o coração é seu, ama-o sem dó.

Digo que é sábado de outubro,
de lua imensa (a mente dorme),
ó sol grande, de joelhos e casto,
indulgente e demasiado humano,
ama um pouco a sombra de nós.

CONSTRUÇÃO

Há o tijolo, que pode ser puro, pedra preciosa
a erigir paredes, muros, sonhos – quem sabe?

Nenhuma construção se faz sem abalar a fé,
se finalmente é necessário dar o primeiro passo.

Telhados de jade irradiam o sonho para dentro:
muitas e muitas casas levantadas sobre nuvens.

A FLORESTA

Na reportagem da TV o velho casal de camponeses suados,
no afã de reflorestar a terra quase morta à margem do rio,
cujas barrancas de pó já desmoronavam ao longo dos anos.

Lembravam, com voz de saudade, a mata que havia ali,
as árvores com nomes, desmontadas para fazer casas,
móveis, bancos, berços de filhos, lenha para a noite fria.

Ao fim da tarde sentavam na varanda embalando os netos,
vendo o sol vermelho lustroso, o vapor subindo da água,
enquanto os filhos ferviam leite de vaca para fazer queijo.

Agora, construída a noite, outra luz traz e renova a imagem
de uma mata com nome, cheia de pássaros, micos, ruidosa,
os bisnetos percorrendo as mesmas árvores anos à frente.

PAUSA

Os anos de danças passaram rapidamente,
em fogo – como devem ser os anos de graça.
– Conseguirei enfim a merecida paisagem?

Já se aproxima o tempo da rede na varanda,
tempo de aturar a tremenda lentidão dos dias.
– Alcançarei à vista a névoa acolchoando o monte?

Devo recordar-me que foram lindos e belos,
flores de carne, olhos de sorrisos e mais risos.
– Sentirei a maresia, o odor do salitre que a brisa traz?

Os sons de baile e bebida se foram velozmente,
vem chegando o tempo da cadeira de balanço...
– Verei por fim o meu exclusivo horizonte verde?

Os óculos de leitura sobre o livro esquecido,
alguém que grita meu nome em vão: durmo.
– Deitarei acalantado pelo cicio da onda na praia?

Hei de lembrar dos amores devastadores, infiéis,
nichos de carne, lábios fumegantes, olhar de paz.
– Pedirei ao amor que não venha porque é tarde?

E contentar-me com a surpresa daquilo que vier,
agradecer ao mar, amar o sonho que me for dado.
– Terei no ocaso da vida o pôr de sol púrpuro?
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