pOeSiA, aRtE e LiTeRaTuRa
sexta-feira, 20 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
AUGUSTO DOS ANJOS - 100 ANOS DO "EU" (1912-2012)
EU
AUGUSTO DOS ANJOS-EU-29ª EDIÇÃO-COMEMORATIVA DO CINQÜENTENÁRIO DO SEU APARECIMENTO 1912-1962-LIVRARIA SÃO JOSÉ-RIO DE JANEIRO, 1963-INTRODUÇÃO DE FRANCISCO DE ASSIS BARBOSA
Eram fundadas as esperanças do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914), ao se dispor a jogar todas as fichas no sucesso do seu livro de poesias EU. Era tamanha fé com que carregava o seu projeto, que teve e topete de sacrificar a sua vida profissional na Paraíba e partir para o Rio, na mais completa pindaíba. Mas com laivos de irresponsabilidade, posto que arrastasse consigo a sua família na temerária aventura.
O sacrifício compulsório que teve de assumir foi impulsionado pela circunstância de ver o pedido de licença para viajar ser negado pelo Governador do Estado, que seria seu “amigo”. Assim, o que poderia ser um porto seguro em caso de fracasso, transformou-se num adeus: de modo perempto, ele abandona o cargo de professor e resolve viajar para o Rio de Janeiro, levando na bagagem a mulher grávida e os originais de seu livro de poesias EU. Corria o ano de 1910...
“Fora fulminante o choque. Retornando a casa depois da entrevista que lhe marcaria o destino, o poeta transfigurado comunicara à esposa a dramática resolução: – Vamos para o Rio. Nunca mais porei o pé na Paraíba! – Dias depois, o primeiro navio do Lóide que passou pelo Recife levaria para o Rio de Janeiro o casal Augusto dos Anjos”.
A viagem foi dramática, não só pelo arrebatamento impulsivo do poeta, mas também porque a sua esposa estava grávida de três meses. Desconhecido no Rio de Janeiro, ele contava apenas com o apoio do irmão Odilon dos Anjos, e foi justamente com este que o poeta conseguiu recursos para publicar o seu livro, após frustradas tentativas junto a editores cariocas.
Debaixo de tanta responsabilidade, Augusto dos Anjos, morando numa pensão da Praça Mauá, no começo da Avenida Rio Branco, teve de encarar a nada fácil vida da Capital da República. O colega alagoano José Oiticica, também recém imigrado, dividia com Augusto dos Anjos sua parcela de infortúnios.
Muito embora Augusto dos Anjos tivesse conseguido emprego de professor na Escola Normal, nem por isso se viu livre da situação de penúria que passava com a família. Aceitou a colocação, mas a considerava um posto temporário, não só porque remunerava mal, mas também porque o seu sonho era fazer parte do corpo docente do Colégio Pedro II, por onde passavam todas as sumidades da época.
Toda essa situação se agrava devido a seu gênio introspectivo, onde até mesmo a ajuda espontânea e valiosa do irmão parecia a ele um favor e por isso mesmo inaceitável. Como se não bastasse, em consequência do acúmulo de desastres materiais, adveio uma profunda depressão, agravada pela recepção silenciosa, pela reação pífia dos críticos e pelo silêncio da intelectualidade sobre o seu livro. Se lembrarmos do primeiro passo dado em João Pessoa, a profunda decepção tinha sua razão de ser: Augusto dos Anjos sacrificou a vida e depositou todas as suas esperanças no sucesso do EU.
A Capital Federal vivia a época em que predominava a literatura voltada para a sociedade feliz, até certo ponto parisiense. Parnasianos e Simbolistas dividiam a atenção dos amantes da literatura e da poesia. O aparecimento de um livro como EU em 1912, nesse ambiente artificial, na segunda década dos anos de 1900, constituía uma coisa insólita e desafiadora. O cronista de O País, Oscar Lopes, representante legítimo dessa mentalidade, se mostrou escandalizado ao ler o livro de Augusto dos Anjos, "tocando no volume com a ponta dos dedos, para não sujar as mãos de sangue no vermelho do título que ocupava quase toda a capa".
Lá mais adiante, esse fato inusitado – em que a própria capa, elaborada de modo excêntrico, por si própria provoca um rebuliço – Manuel Bandeira bem que notou: “Nesse ambiente de requintado modernismo estourou como um grito bárbaro a voz de um estranho poeta, cujo livro se intitula EU e já nesse prenome impresso em grandes letras que tomavam toda a capa, clamava o seu irredutível egotismo”.
Porém, alguns poucos simbolistas – vertente literária futurista e rebelde da época – ao lado de outros não vinculados às correntes literárias, apoiaram o recém-chegado. Mário Pederneiras, Osório Duque Estrada, José Oiticica e Eduardo Guimarães (de pensamento independente), saudaram a poesia nova e diferente de Augusto dos Anjos.
Assim, como seu livro de estreia EU – que viria ser o único – Augusto dos Anjos morreu, desconhecido e silencioso, em 1914, na cidade de Leopoldina (MG). A não ser pela agitação promovida pelos ardorosos admiradores Orris Soares, Heitor Lima e Antonio Torres, nada se comentou na imprensa. Antes mesmo de completar quatro anos de vida na Capital Federal, antes de realizar o sonho de ver seu livro ser aceito pelos leitores e pela crítica, Augusto dos Anjos desapareceu.
Dos literatos de seu tempo se contam duas anedotas. A primeira foi atribuída a Olavo Bilac, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, e ocorreu logo após o falecimento de Augusto dos Anjos:
Poucos dias depois de sua morte, os amigos Orris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, quando encontraram a Olavo Bilac, recém-eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros. Ao cumprimentá-lo, ele indagou o porquê da visível tristeza dos dois amigos. Logo Olavo Bilac foi informado da morte do ‘grande’ poeta Augusto dos Anjos, mas sua reação foi frustrante: mostrou completo desconhecimento do nome do ‘grande’ poeta, não conhecia nenhuma poesia dele e ignorava as circunstâncias do fato.
E quis saber: “Quem é esse Augusto dos Anjos?”. Os dois amigos, espantados diante da falta de informação do poeta, ficaram mudos. Ante o silêncio de seus interlocutores, Olavo Bilac insistiu: “Quem foi esse poeta? Não conheço, nunca ouvi falar, sabem alguma poesia dele?” Heitor Lima tomou a iniciativa e recitou o soneto “Versos a um coveiro”, que foi ouvido séria e pacientemente. Mas talvez tenha sido a escolha de repertório infeliz, que fez Olavo Bilac sentenciar: “É esse o poeta? Então fez bem morrer, porque não se perdeu grande coisa”.
A segunda anedota, quando muitos críticos já tinham publicado outras opiniões, era bem diferente:
Gilberto Freyre, então licenciado da Columbia University (USA), em visita à Paraíba a convite de José Lins do Rego, foi levado a conhecer uma estátua, recém inaugurada, em homenagem ao escritor Álvaro Machado. Diante da imponente vassalagem ele perguntou a José Lins: “E para Augusto dos Anjos, o que vocês fizeram?”
Foi desse modo, tardio e anedótico, que Augusto dos Anjos passou a pertencer ao Clube Exclusivo de Artistas Incompreendidos em Vida. Em literatura não são poucos os membros desse clube, desde o exemplo maior Miguel de Cervantes, com Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança, que não teve reconhecimento dos contemporâneos de sua terra: “Post tenebras, spero lucen” é a divisa que acompanha o seu Ex Libris...
No nosso país, Augusto dos Anjos tem como principal parceiro o poeta e também nordestino Joaquim de Sousândrade (1832-1902), que teve o seu longo poema O Guesa (13 Cantos, total de 3342 estrofes, escritos entre 1858 e 1888), impresso na Inglaterra e ignorado pela crítica. Joaquim de Sousândrade constatou, com tristeza, que o seu livro só seria compreendido no espaço de cinqüenta anos após sua morte. Voltando a Augusto dos Anjos, o mea culpa veio primeiro de José Américo de Almeida, que se viu na obrigação de escrever sobre o poeta logo quando após sua morte completar um mês. Daí em diante o reconhecimento ao valor do EU e da qualidade do poeta, não só cresceu, mas ganhou novas e contundentes avaliações.
Toda essa polêmica, que para alguns demora até os dias atuais, transformou o EU num livro enigmático e desafiador, fazendo parelha com outras obras que sobreviveram graças ao extraordinário poder, à qualidade de conteúdo, ao mistério que as suas criações guardaram. Aleatório e de memória, relembro alguns títulos que participam do mesmo destino: Folhas da relva (Walt Whitman), Primeiros cantos (Gonçalves Dias), Flores do mal (Charles Baudelaire), Navio negreiro (Castro Alves) e o já citado O Guesa, de Sousândrade. Para referir somente à poesia, se pode afirmar que Augusto dos Anjos está em ótima companhia.
Já faz mais de cem anos que Augusto dos Anjos aportou no Rio de Janeiro trazendo debaixo do sovaco os originais do EU, livro que tanto amava e no qual depositou todas as suas esperanças. Em 2012 faz cem anos também que saiu a primeira edição, guardada por um silêncio de vários anos, pois só em 1920 foi publicada a segunda edição, por iniciativa de amigos. Além de deixar como herança os volumes encalhados, ao autor coube guardar a dívida com seu irmão que nunca foi paga.
E, no entanto, os poemas do EU – acrescidos de outros escritos publicados esparsamente – continuarão sua indevassável e sempre renovada jornada através da mente do leitor. Alguns poemas parecem fácil tradução emotiva de uma vivência pessoal; a grande maioria, porém, traduz a comoção que acompanha o homem e seu destino cabalístico, científico, teológico – que está sujeito sempre à derivação que a mente estipula para cada intérprete e seu tempo.
Rio de Janeiro, Cachambi, 01/01/2012
Obs.: O texto e as citações deste artigo foram baseados no volume acima citado.
EU - A ÚLTIMA QUIMERA
ANA MIRANDA – A ÚLTIMA QUIMERA – ROMANCE – COMPANHIA DAS LETRAS, SP – 1995
Um bom reforço neste ano de 2012, comemorativo do centenário de publicação do EU, de Augusto dos Anjos é este livro de Ana Miranda, A última quimera, que, por isso mesmo, merece uma reedição.
Isto porque, neste Século 21, são poucos os que conhecem os detalhes da aventura desumana que redundou em desastre e transformou em drama a vida do poeta augusto dos Anjos.
Para os leitores que um dia tiveram nas mãos esse estranho e incompreensível livro – EU – o seu teor será mais estranho e mais emblemático ainda. Neste caso, o romance de Ana Miranda irá pacificar a sua mente, além de obrigá-lo a reler, uma vez mais e sob novas perspectivas, um dos livros mais importantes e universais da poesia brasileira.
Partindo de um fato ocorrido após o falecimento de Augusto dos Anjos – o encontro casual entre dois amigos consternados e o poeta Olavo Bilac, recém chegado de Paris. A autora leva o leitor a uma retrospectiva labiríntica – mas com roteiro exato – percorrendo os fatos e dramas que antecederam e precederam a morte do poeta: o período trágico entre 1910 e 1914.
No romance A última quimera, os dois amigos da história original se fundem numa só pessoa, que é o próprio narrador: “Na madrugada da morte de Augusto dos Anjos caminho pela rua, pensativo, quando avisto Olavo Bilac saindo de uma confeitaria de fraque e calça xadrez, com bigodes encerados de pontas para cima e pincenê de ouro se equilibrando nas abas do nariz.”
O fato é historicamente anedótico: o pragmatismo do poeta famoso ante as notícias sobre novos autores. Uma prevenção instintiva o alerta sobre o “perigo” e logo se transforma em autodefesa, que o protege, a seus pares e à corriola que o cerca. Informado do falecimento do poeta Augusto dos Anjos, Olavo Bilac, consagrado Príncipe dos Poetas, confessa ignorância sobre a pessoa e as obras do finado. E para conhecê-lo, pede informações e que lhe recitem algum poema dele.
Para ser um romance de cunho histórico e não apenas uma biografia, a autora recorre à ficção e acrescenta toda carga dramática necessária. É neste ponto que Ana Miranda reelabora o fato e parte para a ficção: substitui o poema que foi recitado – “Versos a um coveiro” –, pelo magnífico soneto “Versos íntimos” que, junto com “Monólogo de uma sombra”, é um dos mais queridos entre os fãs de Augusto dos Anjos.
Versos íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem que, nesta terra miserável,
Mora entre feras sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que afaga,
Escarra nessa boca que beija!
A história original, narrada por Francisco de Assis Barbosa na introdução da 29ª edição do EU, (Editora São José, 1963), conta o fato da seguinte maneira:
“A morte de Augusto dos Anjos, em 1914, teve pouca ou quase nenhuma repercussão na imprensa do Rio de Janeiro, a não ser pelo artigo de Antônio Tôrres, recordando o poeta com entusiasmo. (...) na Paraíba, como a reparar todo o mal que fizeram ao filho incompreendido, José Américo de Almeida escreveu o seu “Augusto dos Anjos no trigésimo dia do seu falecimento” (...) Por iniciativa de Orris Soares, seria publicada uma nova edição do EU, acrescida de poemas esparsos, em 1920. Até então, o poeta quedara esquecido, mesmo dos que o amavam, quando não completamente ignorado pelos donos da literatura. Dias depois da sua morte, ocorrida em Leopoldina, Orris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Central [hoje Avenida Rio Branco] e pararam na porta da Casa Lopes Fernandes para cumprimentar Olavo Bilac. O Príncipe dos Poetas notou a tristeza dos dois amigos, que acabavam de receber a notícia.
– E quem é esse Augusto dos Anjos? – perguntou.
Diante do espanto de seus interlocutores, Bilac insistiu:
– Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome. Sabem alguma coisa dele?”
Heitor Lima, que conhecia a fundo a obra do amigo Augusto dos Anjos, recitou o soneto
Versos a um coveiro
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!
Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros,
A gênese de todos os abismos!
Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a somar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais,
Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!
“Bilac ouviu pacientemente, sem interrompê-lo. E, depois que o amigo terminou o último verso, sentenciou com um sorriso de superioridade:
– Era este o poeta? Ah, então fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa”.
Pode ser que a escolha do poema tenha sido infeliz – não era dos mais belos – que o tema, um tanto mórbido, causasse a reação intempestiva, um tanto sarcástica e fria de Olavo Bilac. Ou talvez o fato não tenha ocorrido e seja apenas de mais uma das muitas anedotas literárias que circulam por aí, atribuídas a muitos escritores, vivos e mortos.
O fato é que, com este gancho, Ana Miranda nos transporta – na voz de um narrador onipresente e onisciente – à brevíssima residência do poeta no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ao nos indicar o caminho que atravessa toda a existência de Augusto dos Anjos, ultrapassando a própria morte, sinaliza um futuro menos áspero e mais glorioso.
Deixa, porém, um mistério: quem será esse narrador que sabe “de cor todos os versos de Augusto dos Anjos?”
Quem será esse companheiro “do tempo em que éramos crianças e passávamos férias juntos, no Pau d’Arco?”
Quem é essa figura que encontra Bilac amiúde e ouviu dele o pedido de desculpas pelo que falou “a respeito do poeta que morreu?”
Quem será o autor do relato que viu guardado entre as mãos de Olavo Bilac um exemplar do EU, “comprado no balcão de saldos da Livraria Garnier, a preço vil?”
Quem será o narrador que na madrugada encontra uma jovem de vestido escuro, xale sobre os ombros, chapéu de feltro, expressão de alguém dotada de intensa e sofrida vida espiritual e sabe tudo sobre Augusto dos Anjos – que o parabeniza por ter sido “eleito o Príncipe dos Poetas?”
Seja o quê for ou quem for Ana Miranda transformou-o em personagem que guarda um credo: a platônica paixão por Esther, esposa (e depois viúva) de Augusto dos Anjos, a quem não teve coragem de cortejar. Um professor de Leopoldina casou-se com a viúva antes do defunto esfriar, como se costuma dizer.
Ressabiado, ele relembra “o sujeito com quem Esther se casou é o mesmo que espreitava sua casa e que a procurou para falar sobre a criação de um Grêmio Literário”; que “muitos condenaram o casamento”.
Da amada Esther, guarda ternas lembranças: “De manhã saía com os filhos a passear na praça; às vezes entrava na igreja e chorava, ajoelhada diante do altar”. Lembra também do “pintor que passeava de tarde na linha do trem, Funchal Garcia, [que] fez um retrato a óleo de Esther, em roupas negras”.
Por fim, conclui amargurado: “Esther está grávida do quarto filho. Apenas lamento que não tenha se casado comigo”.
Um caso de amor de cunho passional, em que Esther guarda silenciosa aparência com Capitu, ou até mesmo com o affair de Ana, esposa de Euclides da Cunha, sem o desfecho trágico, claro...
A última quimera, de Ana Miranda, entre as comemorações dos 100 anos do EU, é um livro a ser lido.
Rio de Janeiro, Cachambi, 04/01/2012
Marcadores:
Ana Miranda,
Augusto dos Anjos,
biografia,
romance brasileiro
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Rabindranath Tagore - O poeta esquecido
Rabindranath Tagore – Antologia – MEC –
Serviço de Documentação 1961.
“EDIÇÃO DO SERVIÇO DE DOCUMENTAÇÃO DO
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA EM COMEMORAÇÃO AO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE
RABINDRANATH TAGORE. RIO DE JANEIRO – BRASIL – 1961”
Neste ano de 2011 comemora-se 150 anos
de nascimento do poeta, dramaturgo, escritor, pintor e músico Rabidranath
Tagore (1861) e a memória dos 70 anos de sua morte (1941). Esses eventos, até a
presente data, passam-se em silêncio e é provável que só sejam lembrados por
aqueles que mantiveram vivo o nome de Tagore, seja nas associações e clubes
culturais ou com as publicações particulares, de caráter e circulação restritos
apenas aos iniciados. Tudo bem diferente das comemorações pelo centenário de seu
nascimento, quando, em todos os continentes se promoveu algum tipo de homenagem
a Tagore. Em 1961 foi publicada, de modo oficial, uma ampla seleção de sua
obra, que incluía textos e excertos em prosa, teatro e verso (Colheita de frutos, O jardineiro, Pássaros perdidos, A lua
crescente, 7 poemas de “Puravi”,
Minha bela vizinha, Conto, Mashi, O carteiro do Rei
e A fugitiva), dos quais apresentamos
uma antologia.
A tradução e adaptação ficou a cargo
dos poetas Abgar Renault, Cecília Meireles e Guilherme de Almeida. Nem precisa
dizer que estávamos num tempo em que escritores traduziam escritores. Não havia
o tradutor profissional, nem tampouco se imaginava que os robôs da tradumática viriam a substituí-los de
maneira tão dramática e que, até, fizessem versões de melhor qualidade, o que
muito tradutorzinho saído da universidade com diploma debaixo do sovaco não
consegue.
No texto introdutório, não assinado, se
lê:
“Este
volume, com que o Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura
se associa às homenagens universais
prestadas a Rabindranath Tagore, por ocasião do Centenário de seu nascimento,
compõe-se de traduções de algumas de suas obras feitas por três poetas
brasileiros: Abgar Renault, Cecília
Meireles e Guilherme de Almeida. Não são as únicas traduções realizadas por
esses três autores. E nem são eles os únicos tradutores brasileiros de
Rabindranath Tagore.
“As
páginas aqui apresentadas pretendem dar apenas uma idéia da versatilidade de
Rabindranath Tagore em diferentes gêneros, idéia reduzida (à maior modéstia),
quando se consideram a prodigiosa fecundidade literária do grande poeta hindu
e, por igual, a multiplicidade dos sentidos da sua obra, que nos depara um
pensamento religioso, dominado pelas meditações sobre a natureza essencial de Deus
e a sua presença em todos os aspectos da vida; um pensamento ético, que flui,
tal água da fonte, do pensamento religioso, é dele prolongamento ou resultante
e se espraia e alcança até as mínimas coisas do cada dia de cada homem,
desdobrada em regras de procedimento moral expostas em alegorias e símbolos de
beleza profunda, que oscila entre o obscuro e o fulgurante; o pensamento
idílico, que, às vezes, se confunde de maneira singular, com o pensamento
religioso, se transforma, com freqüência, numa densa expressão sincrética do
próprio mistério da vida, e, quando a quando, assume surpreendentemente a
claridade e a graça mediterrâneas que caracterizam os poetas líricos do
Ocidente; e um pensamento educacional, que não se exprimiu em fórmulas técnicas
nem na ação do educador apenas, mas encontra forma poética no maravilhoso livro
intitulado A lua crescente – obra
educacional no sentido mais fundo e mais alto que essa palavra alcança.
“Esses
quatro sentidos da obra de Tagore fundem-se, ao cabo, numa só expressão
filosófica, que destila uma força, um sumo de doçura, uma sensibilidade, uma
graça consoladora, uma exaltação de Deus, da natureza e da vida, um perdão
total, uma ternura para com os seres humildes e as coisas pequeninas deste
mundo – sabedoria humana de que não temos notícia em outro poeta.
“Mas
este livro é, acima de tudo, uma presença ocidental nas comemorações do Centenário
de Rabindranath Tagore, que tanto desejou uma união afetuosa e compreensiva dos
dois hemisférios e o seu intercâmbio espiritual, para a dignificação e
felicidade da criatura humana.
“Sua
obra vastíssima, em prosa e verso, compreende poesia, teatro, romance, conto e
ensaio. Deixou centenas de canções com música de sua autoria. Em pintura, é
considerado, na Índia, um dos grandes renovadores. Como educador, foi também um
pioneiro, em seu país, tanto no espírito como nos métodos de educação.”
Também não precisava registrar (mas o
faço) que houve um tempo em nosso país que no Governo Federal havia um
Ministério da Educação e Cultura, que – pasmem – promovia a educação e a
cultura! Hoje temos dois ministérios, um só para Educação, outro só para a Cultura,
que não promovem absolutamente nada e, quando tentam fazer alguma coisa, sempre
tudo dá errado, sempre tudo é maculado pelo vírus da corrupção. A cultura e a
educação se privatizaram, se transformaram em comércio, capitalizaram-se – de
tal maneira que tudo só se promove visando o lucro, mesmo que não seja o ganho
financeiro, mas qualquer lucro, o lucro do poder, o lucro da influência, o
lucro da promoção pessoal, inclusive – e mais freqüente – o lucro eleitoreiro...
Rabindranath Tagore obteve
reconhecimento universal, porque as suas obras trataram de libertar a Índia das
tradições literárias regionais, tornando-se uma cultura não mais apenas
exótica, dos sultões e palácios, dos faquires e brâmanes. Ao igualar a cultura
de sua terra aos traços aceitáveis no Ocidente, Tagore incorporou não somente
todo o acervo histórico e cultural, milenares, mas também conduziu à
modernidade a linguagem culta e os costumes populares de seu povo.
De: “Colheita de frutos”
ORDENA-ME e colherei
meus frutos e os trarei em cestos transbordantes para o teu pátio, embora
alguns estejam perdidos e outros ainda verdes.
Porque a estação se torna pesada na sua
plenitude e há na sombra o som queixoso da flauta de um pastor.
Ordena-me e far-me-ei à vela no rio.
O vento de março está agitado,
levantando as lânguidas ondas em murmúrio.
O jardim deu tudo o que era seu e na
cansada hora da tarde, da tua casa na praia, ao crepúsculo, vem o teu apelo...
MINHA vida,
quando jovem, era qual uma flor – que solta uma pétala ou duas da sua riqueza e
nunca lhes sente a falta, quando a brisa primaveril vem mendigar à sua porta.
Agora, no fim da mocidade, minha vida é
como um fruto, que nada tem em excesso e espera para oferecer-se inteiramente,
com a carga de toda a sua doçura.
ACORDEI pela
manhã e encontrei sua carta.
Não sei o que ela diz, porque não sei
ler.
Deixarei o sábio entregue a seus
livros, não o perturbarei, pois ninguém tem certeza de que ele sabe ler o que a
carta diz.
Deixa-me encostá-la na fronte e apertá-la
de encontro ao coração.
Quando a noite emudecer e as estrelas
surgirem uma a uma, abri-la-ei em meu regaço e ficarei silencioso.
As folhas sussurrantes a lerão alto
para mim, o riacho murmurante a modulará e do céu as sete estrelas sábias a
cantarão para mim.
Não posso achar o que procuro, não
posso entender o que desejara aprender.
Mas esta carta, que não li, aliviou
minha carga e transformou meus pensamentos em canções.
A DOR foi grande
quando as cordas estavam sendo afinadas, Senhor!
Começa a tua música e deixa-me esquecer
a dor e sentir em beleza o que tinhas na mente através desses dias despiedosos.
A noite que vai morrendo demora-se à
minha porta.
Deixa-a despedir-se em canções.
Em melodias que desçam das tuas
estrelas, Senhor, derrama teu coração nas cordas da minha vida.
De: “O jardineiro”
POR sobre os
arrozais
verde-amarelos, rápidas
lá vão passando as sombras
das nuvens outonais,
perseguidas do sol
– célere caçador.
As abelhas se esquecem
de sugar o mel
e, embriagadas de luz,
doidas, rondam e zumbem.
Sobre as ilhas do rio,
à toa, sem motivo,
grasnam patos contentes.
Ninguém vá para casa,
Irmãos, esta manhã
ninguém vá trabalhar.
Vamos tomar de assalto
o céu azul: saqueemos
a amplidão a correr!
Flutua o riso no ar
como a espuma no mar.
Dissipemos, Irmãos,
esta nossa manhã
em inúteis canções.
NÃO guardes, ó
minha amiga, para ti somente
esse segredo do teu coração...
dize-o baixinho a mim, a mim
unicamente,
tu, que segredas tão suave e
docemente...
os meus ouvidos não o escutarão:
há de escutá-lo, sim, meu coração...
A noite está profunda. A casa está
silente.
Os ninhos com seus pássaros estão
de sono amortalhados.
Conta-me em lágrimas de hesitação,
através de sorrisos perturbados,
leve rubor, leve aflição,
esse segredo do teu coração...
COMO ave do
deserto, achou meu coração
o seu céu nos teus olhos... Eles são
o berço da manhã e o reino das
estrelas.
Minhas canções se perderam na sua
profundidade.
Consente apenas que eu me eleve nesse
céu,
na sua solitária imensidade...
Deixa-me só fender-lhe as nuvens e
espantar
minhas asas no seu fulgor solar...
De: “Pássaros perdidos”
Se
à noite choras pelo sol, não verás as estrelas.
Em
teu caminho, água que danças, a areia mendiga a tua canção e a tua fuga. Não
quererás levar contigo essa leviana?
O
seu rosto anelante persegue os meus sonhos como a chuva durante a noite...
Sonhamos
uma vez que não nos conhecíamos e despertamos para ver se era verdade que nos
amávamos.
Não
deixes o teu amor sobre o precipício. . .
Nesta
manhã, sento-me à varanda para contemplar mundo. E o mundo, viageiro, detém-se
um instante, saúda-me e parte.
Não
sou eu quem escolhe o melhor: o melhor é que escolhe a mim.
Aquele
que carrega a sua lâmpada costas, não lança adiante senão a sua sombra.
Meu
coração se entristece em silêncio, não sei dizer por quê... São coisas
pequeninas que ele nunca pede, nem, entende, nem recorda... .
Quando
caminhas de um lado para outro, mulher, nas lidas caseiras, o teu corpo canta
feito uma fonte serrana entre as pedras.
Que
derradeiro adeus deixa no oriente o sol, ao ir-se afundando no mar, ao crepúsculo!
O
peixe é mudo na água; o animal, ruidoso na terra; o pássaro, canoro nos ares.
Mas o homem tem em si a música dos ares, o tumulto da terra e o silêncio do
mar.
Ao
precipitar-se através das cordas do nosso coração preso às coisas, o mundo
chora a música da tristeza.
Como
as gaivotas e as ondas, nós nos encontramos e nos unimos. Vão-se as gaivotas,
voando, as ondas vão-se, a rolar, e nós também nos vamos. . .
Acabou-se
o meu dia. Sou como um barco na praia ouvindo, no meu anoitecer, a dança da
maré.
Por
amor ao imperfeito o perfeito se adorna de formosura.
Deus
cansa-se dos reinos, mas não das florezinhas...
O
bem pode resistir às derrotas, o mal não.
Modula
a cascata: "Embora um pouco da minha água baste ao que tem sede, com que
alegria a entrego toda a ele!".
Como
sente o meu coração solitário o suspiro deste viúvo anoitecer de névoa e chuva!
A
névoa, roçando o coração dos montes; arranca-lhes, tal se fora o amor,
surpresas de formosura.
Lemos
mal o mundo, e logo dizemos que o mundo nos engana.
Se
cerrares a porta a todos os erros, impedirás a verdade de entrar.
Atrás
da tristeza do meu coração há suspiros e rumores, mas eu não posso compreendê-los!
Chuvoso
anoitecer, como o teu vento inquieto, agitando os ramos, me faz meditar na
grandeza de todas as coisas!
Quando
eu ia e vinha, sem ir-me, que cansaço davas, ó caminho! Mas, agora que me levas
a todos os lugares, somos como dois namorados.
Deixa-me
crer que uma destas estréias guia a minha vida pelo obscuro mistério!
Mulher,
quando tocaste a minha vida com a graça dos teus dedos, a ordem surgiu em mim,
tal a música.
Tristonha
voz, que tem o seu ninho nas ruínas dos anos, canta-me pela noite: "Eu te amei...
"
Como
entra pelas fendas da vida esburacada a música triste da morte!
De: “A lua crescente”
NA PRAIA
As
crianças se encontram nas praias dos mundos sem fim.
O
céu infinito está imóvel lá em cima e a água inquieta está revolta. Na praia
dos mundos sem fim as crianças se encontram entre gritos e danças.
Constroem
as suas casas de areia e brincam com suas conchas vazias. Tecem de folhas secas
os seus botes e, sorrindo, os largam a flutuar no vasto mar. As crianças
se divertem na praia dos mundos.
Não
sabem nadar, não sabem lançar redes. Os pescadores de pérolas mergulham em
busca de pérolas, os mercadores navegam em seus navios, enquanto as crianças
ajuntam seixos e os espalham de novo. Não procuram tesouros escondidos, nem
sabem lançar redes.
O
mar encapela-se entre risos, e, pálido, fulgura o sorriso da praia do mar... As
ondas que trazem a morte cantam para as crianças baladas sem sentido, tal a mãe
que embala o berço de seu filho. O mar brinca com as crianças, e, pálido,
fulgura o sorriso da praia do
mar...
As
crianças se encontram na praia dos mundos sem fim. A tempestade vagueia pelo
céu sem caminhos; soçobram navios nos ínvios mares; a morte anda às soltas, e
as crianças brincam. Na praia dos mundos sem fim é que se dá o grande encontro
das crianças.
A FIGUEIRA
Ó
figueira de fronde áspera da margem do lago; já esqueceste a criancinha, como
os pássaros que fizeram ninho nos teus ramos e te abandonaram?
Não
te lembras como sentava à janela e ficava admirada das tuas raízes emaranhadas,
que mergulhavam debaixo da terra?
As
mulheres costumavam vir encher os seus jarros na lagoa e a tua enorme sombra
negra movia-se na água como o sono que luta por acordar.
A
luz do sol dançava nas ondulações da água como pequenas lançadeiras inquietas
tecendo uma tapeçaria de ouro.
Dois
patos nadavam sobre suas próprias sombras junto à margem coberta de ervas
daninhas, e a criança ficava sentada, silenciosa e pensativa.
Ela
queria ser o vento e assoprar entre os ramos sussurrantes; ser a tua sombra e
alongar-se com a luz do dia sobre a água; ser um pássaro. e pousar no teu ramo
mais tenro e mais alto, e flutuar como aqueles patos entre as ervas daninhas e
as sombras.
A DÁDIVA
DESEJO
dar-te alguma coisa, meu filho, porque vamos arrastados na torrente do mundo.
As
nossas vidas serão levadas para lugares diversos, e o nosso amor será
esquecido.
Mas
não sou tão tola que espere poder comprar o teu coração com as minhas dádivas.
A
tua vida é jovem, longo o teu caminho, e bebes de um trago o amor que te
trazemos, e viras-te, e foges de nós.
Tens
os teus brinquedos e tens companheiros com quem brincar.
Que
mal há em que não tenhas tempo nem qualquer pensamento para nós?
Na
verdade, temos na velhice lazer de sobra para contar os dias que se foram e
acariciar no coração o que nossas mãos perderam para sempre.
O
rio corre veloz a cantar, rompendo todas as barreiras. A montanha, porém, fica
e recorda, e acompanha-o com o seu amor...
A MINHA CANÇÃO
ESTA
minha canção enleará sua música em torno de ti, meu filhinho, como os braços
apaixonados do amor.
Esta
minha canção tocar-te-á a fronte como um beijo de bênção.
Quando
estiveres sozinho, ela se assentará ao teu lado e segredará ao teu ouvido;
quando estiveres no meio da multidão, criará uma barreira de distância em torno
de ti.
A
minha canção será como um par de asas para os teus sonhos.
Transportará
teu coração às bordas do desconhecido.
Será
como a estrela fiel lá em cima, quando a noite escura tombar sobre a tua
estrada.
A
minha canção pousará nas pupilas de teus olhos e levará a tua vista até o
coração das coisas.
E
quando a minha voz emudecer na morte, a minha canção falará no teu coração
vivo.
(Tradução:
Abgar Renault)
De: “Puravi”
ÚLTIMA PRIMAVERA
ANTES
que o dia termine,
consente-me
este desejo:
vamos
colher
flores
da primavera
pela
última vez.
Das
muitas primaveras
que
ainda visitarão
tua
morada,
concede-me
uma,
–
implorei.
Todo
este tempo,
não
prestei atenção
às
horas,
perdidas
e gastas à toa.
Num
lampejo
de
um crepúsculo,
li
nos teus olhos agora
que
meu tempo está próximo
e
devo partir.
Assim,
ávido, ansioso,
conto
um por um
–
como o avarento o seu ouro –
os
últimos, poucos dias de primavera
que
ainda me restam.
Não
tenhas medo
Não
me demorarei muito
no
teu jardim florido,
quando
tiver de partir,
no
fim do dia.
Não
procurarei lágrimas
nos
teus olhos
para
banhar minhas lembranças
no
orvalho da piedade.
Ah,
escuta-me,
não
te vás.
O
sol ainda não se esconde.
Podemos
permitir que o tempo
se
prolongue.
Não
tenhas medo.
Deixa
que o sol da tarde
olhe
por entre a folhagem
e
se detenha um momento
brilhando
no negro rio
do
teu cabelo.
Faze
o tímido esquilo,
perto
do lago,
fugir
de repente
ao
estrépito de teu riso
que
irrompe
com
descuidosa alegria.
Não
procurarei
retardar
teus rápidos passos,
sussurrando
esquecidas lembranças
aos
teus ouvidos.
Segue
teu caminho depois,
se
teu dever é seguir, se tens de seguir
calcando
folhas caídas
com
teu andar apressado,
enquanto
as aves que voltam
povoam
o fim do dia
com
o clamor dê seus gritos.
Na
escuridão crescente,
tua
distante figura
irá
fugindo e apagando-se
como
as últimas frágeis notas
do
cântico da tarde.
Na
noite escura,
senta-te
à tua janela,
que
eu passarei pela estrada,
seguindo
o meu trajeto,
deixando
tudo para trás.
Se
te aprouver,
atira-me
as
flores que te dei
pela
manhã,
murchas
agora ao fim do dia.
Isso
vai ser
o
último e supremo presente:
tua
homenagem
de
despedida.
TROCA
ELA
me trouxe flores de alegria
eu
tinha comigo
os
frutos da minha tristeza.
Quem
sairá perdendo,
perguntei-lhe,
se
trocarmos?
Encantada
e risonha,
ela
disse:
"Então
troquemos:
minha
grinalda é tua
e
aceitarei
teus
frutos de sofrimento".
Olhei
para o seu rosto
vi
que era de uma beleza
implacável.
Bateu
palmas, alegre,
e
apanhou
minha
cesta de frutos
enquanto
eu suspendia sobre o coração
sua
grinalda de flores.
Ganhei,
disse
ela sorrindo
e
retirando-se
logo.
O
sol subiu
para
o alto do céu
e
fazia muito calor.
No
fim do dia
sufocante
todas
as flores murcharam
e
perderam as pétalas.
(Tradução:
Cecília Meireles)
Assinar:
Postagens (Atom)


